Jornal Tijucas - Nos países vulneráveis, a pandemia será mais prejudicial

Nos países vulneráveis, a pandemia será mais prejudicial

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À medida que a pandemia de coronavírus faz com que a economia global pare de forma surpreendente, os países mais vulneráveis do mundo estão sofrendo danos intensos

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(Foto: Victor Moriyama / The New York Times )

*Por Peter S. Goodman, Daniel Politi, Suhasini Raj, Lynsey Chutel e Abdi Latif Dahir

Em Nova Déli, uma vendedora de frutas cujas vendas caíram pela metade agora dilui o leite que serve a seus cinco filhos. No centro da Turquia, uma empresa que realiza passeios de balão de ar quente para turistas colocou seus 49 funcionários em licença por tempo indeterminado e cortou seus salários pela metade.

Em Manila, um barman de uma linha internacional de cruzeiros está preso em casa, imaginando se suas economias vão durar até que seu navio retorne ao mar. Em Johannesburgo, uma mãe que ganha a vida trançando cabelo vai para casa de mãos abanando.

E, em Buenos Aires, um taxista perambula por ruas desertas em busca de passageiros, com medo de contrair o coronavírus, mas ainda com mais medo de perder o táxi por falta de pagamento das prestações. "Não sei o que vou fazer. Esta situação é maior do que eu", disse ele.

À medida que a pandemia de coronavírus faz com que a economia global pare de forma surpreendente, os países mais vulneráveis do mundo estão sofrendo danos intensos. As empresas que enfrentam o desaparecimento das vendas demitem trabalhadores. As famílias com falta de renda estão racionando a comida. O investimento internacional está fugindo dos chamados mercados emergentes em um ritmo não visto desde a crise financeira global de 2008, diminuindo o valor das moedas e forçando as pessoas a pagar mais por bens importados, como alimentos e combustíveis.

"Isso será tão ruim, ou potencialmente até pior, do que a crise financeira global para os mercados emergentes. É triste", declarou Per Hammarlund, estrategista-chefe de mercados emergentes do SEB Group, um banco de investimento global com sede em Estocolmo.

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(Foto: Ulet Ifansasti / The New York Times )

É também uma ameaça às fortunas globais. Os mercados emergentes representam 60 por cento da economia mundial com base no poder de compra, segundo o Fundo Monetário Internacional. Uma desaceleração nos países em desenvolvimento é uma desaceleração para o planeta.

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Do Sul da Ásia à África e à América Latina, a pandemia está confrontando países em desenvolvimento com uma emergência de saúde pública combinada com crise econômica, uma exacerbando a outra. As mesmas forças também atuam em nações ricas. Mas nos países pobres – onde bilhões de pessoas vivem perto da calamidade, mesmo nos melhores tempos – os perigos são amplificados.

A pandemia se desenrola num momento em que muitos governos estão sobrecarregados pela dívida que limita sua capacidade de ajudar os necessitados. Desde 2007, a dívida pública e privada total nos mercados emergentes se multiplicou de cerca de 70 por cento da produção econômica anual para 165 por cento, de acordo com a Oxford Economics.

A Covid-19 desencadeou uma saída acentuada do investimento internacional dos mercados emergentes, que seguiu para a segurança dos títulos do governo dos EUA.

No ano passado, um grupo de duas dezenas de países emergentes, incluindo China, Índia, África do Sul e Brasil, registrou entradas líquidas de US$ 79 bilhões em investimentos, de acordo com o Instituto de Finanças Internacionais. Nos últimos dois meses, um investimento líquido de US$ 70 bilhões saiu desses países.

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(Foto: Jes Aznar / The New York Times )

Essa mudança reacendeu os temores de que alguns países possam estar se aproximando da insolvência e da inadimplência – especialmente a Argentina, a Turquia e a África do Sul.

"A velocidade é bastante impressionante. Quem estava vulnerável no início definitivamente enfrenta uma situação realmente desafiadora", disse Sergi Lanau, economista-chefe adjunto do instituto.

A maioria dos economistas assume que uma recessão mundial já está em andamento – uma recessão sincronizada que está punindo os países indiscriminadamente, transformando forças econômicas tradicionais em vulnerabilidades alarmantes.

Em mecas turísticas como a Tailândia, a Indonésia, a Turquia e a África do Sul, a imposição de uma quarentena mundial ameaça gerar desemprego em massa nos setores hoteleiro, turístico e de restaurantes.

A interrupção da indústria em todo o mundo reduziu drasticamente a demanda por commodities, afetando produtores de cobre como o Chile, o Peru, a República Democrática do Congo e a Zâmbia, além de produtores de zinco como o Brasil e a Índia. Os exportadores de petróleo são especialmente suscetíveis à desaceleração, uma vez que os preços permanecem baixos, pressionando a Colômbia, a Argélia, Moçambique, o Iraque, a Nigéria e o México.

O México já estava em recessão, e muitos de seus empregos estão centrados na produção de bens para os Estados Unidos, que agora impõe um verdadeiro bloqueio.

Em nações ricas, as quarentenas foram obrigatórias, enquanto governos e bancos centrais liberaram trilhões de dólares em gastos e crédito para limitar os danos econômicos. Mas, em países pobres, onde as famílias se amontoam em pequenos cômodos lotados, a quarentena pode ser impossível. As pessoas que se sustentam recolhendo sucata nos lixões correm o risco de passar fome se ficarem em casa.

"Alguns desses países vão realizar experiências reais e desagradáveis no tipo de abordagem 'deixa acontecer', porque não vejo como poderão controlar a situação. Em um bairro de Soweto, como você pode se isolar? As consequências sociais da morte dos fracos e dos idosos serão monstruosas", afirmou Gabriel Sterne, chefe de pesquisa macroeconômica de mercados emergentes da Oxford Economics.

A Índia, com 1,3 bilhão de habitantes, parece profundamente exposta, mesmo que o número oficial de casos de Covid-19 pareça limitado. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, declarou quarentena nacional com o objetivo de evitar a propagação do vírus.

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(Foto: Adam Dean / The New York Times )

Numa tarde recente, em uma rua que leva à principal estação ferroviária de Nova Déli, as pessoas que vendiam artigos na calçada enfrentavam uma mudança perigosa: as ruas estavam vazias.

Mahender, de 60 anos, que engraxa sapatos, dormia na rua, com a cabeça apoiada no saco de pano em que guarda as ferramentas de seu trabalho. Antes do coronavírus, ele ganhava cerca de 400 rupias (cerca de US$ 5) por dia. Agora, consegue 100 rupias.

Mesmo antes do surto, a Índia estava tomada por uma desaceleração econômica. O governo de Modi falhou em gerar os empregos prometidos e foi acusado de adulterar os números oficiais para mascarar a extensão do desemprego.

Diante das queixas em relação à economia decepcionante, Modi atiçou o nacionalismo hindu. A polícia se aliou às máfias hindus em conflitos sangrentos com minorias muçulmanas. Nada disso será facilitado por uma catástrofe de saúde pública associada ao desemprego em massa.

"Você teria de ter alguma fé cega para afirmar que a Índia não está em uma desaceleração maciça. Agora, chega outra grande força, que vai assimetricamente se abater sobre as pessoas mais pobres. Isso pode se transformar em algo muito ruim", disse Swati Dhingra, economista da London School of Economics.

A Argentina estava em perigo antes da pandemia. Sua moeda, o peso, perdeu mais de dois terços de seu valor em 2018 e 2019, quando a inflação ultrapassou 50 por cento. Sua economia contraiu dois por cento no ano passado, a continuação de um longo período de infortúnios nacionais. A dívida pública se aproximou de 90 por cento da produção econômica anual, um sinal de crise.

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Um novo governo, liderado pelo presidente Alberto Fernández, estava enfrentando um problema aritmético potencialmente impossível: como conseguiria reverter cortes impopulares a programas como subsídios financeiros para famílias pobres sem assustar investidores internacionais, acelerando o êxodo de dinheiro? Como o governo poderia liberar gastos e pagar os US$ 57 bilhões que tomara emprestados do Fundo Monetário Internacional?

A diretora do FMI, Kristalina Georgieva, sinalizou flexibilidade. Em uma declaração por escrito, ela citou a pandemia ao declarar a necessidade de "alívio substancial da dívida dos credores privados da Argentina".

Mas o perigo estava se aprofundando. A moeda caiu mais seis por cento em relação ao dólar este ano. Parecia quase certo que a pobreza aumentaria, exigindo recursos do governo.

"É difícil pensar que a Argentina será capaz de obter financiamento de qualquer lugar", afirmou Maria Castiglioni Cotter, diretora da C&T Asesores Económicos, consultoria em Buenos Aires. No entanto, "o governo agora tem de aumentar os gastos públicos", acrescentou ela, ou "arriscar um colapso total".

Na Turquia, as empresas estão afogadas em dívidas, grande parte delas em moeda estrangeira. Essas dívidas são o resultado da busca do presidente Recep Tayyip Erdogan pelo crescimento a qualquer custo. Ele prendeu seus inimigos e apreendeu seus bens, enquanto protegia aqueles que tomavam empréstimos para financiar símbolos de sua força, como um novo aeroporto de Istambul.

Nos últimos anos, os investidores retiraram seu dinheiro do país, derrubando o valor da lira turca, ameaçando as empresas com falência. A pandemia poderá reacender essa crise. A moeda da Turquia caiu dez por cento desde janeiro. O turismo – cerca de um décimo da economia turca – foi dizimado.

Na Capadócia, uma paisagem de estupendas formações rochosas cônicas, Deniz Turgut, de 37 anos, um dos donos da Butterfly Balloons, examinava as despesas contínuas e a receita minguante.

No ano passado, a empresa transportou cerca de 20 mil turistas em balões de ar quente. Em fevereiro, teve apenas 43 clientes, menos que seus 49 funcionários. Turgut relutantemente impôs uma licença a seus trabalhadores. "Não sabemos quando isso vai acabar", disse ele.

Antes da pandemia, a África do Sul estava em apuros – a economia estava em recessão, a taxa de desemprego acima de 29 por cento. Desde que a pandemia surgiu, a moeda da África do Sul se desvalorizou mais de 20 por cento, forçando o aumento dos preços dos bens.

Siphilisiwe Nyathi, que ganha a vida trançando cabelo, foi forçada a pagar extra para alugar uma cadeira em um salão de beleza em Johanesburgo. Extensões de cabelo importadas da China também custam mais.

Em um bom sábado, ela normalmente ganha dois mil rands (cerca de US$ 112). Em um sábado recente, não ganhou nada. Ela pagou a tarifa do micro-ônibus apertado de sua casa, em um município de renda mista, para a cidade, a quase uma hora de distância. Ficou na calçada tentando atrair clientes, mas não foi abordada por ninguém.

"Estamos empacados. Não sabemos o que fazer", desabafou.

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Fonte: Com Agências