Pedro Ladeira / FolhapressLuiz Henrique Mandetta foi recebido com palmas no Ministério da Saúde na segunda-feiraPedro Ladeira / Folhapress

Ao final do dia em que o país ficou em suspense diante da ameaça de demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta chegou sorrindo e sob uma chuva de aplausos à sede do ministério. Numa entrevista repleta de referências indiretas ao presidente Jair Bolsonaro, Mandetta garantiu que continuava no cargo

O fracasso da tentativa de demitir Mandetta foi sobretudo uma derrota do núcleo ideológico do governo. Instigado pelos filhos, pelo guru Olavo de Carvalho e pelos extremistas radicados no chamado “gabinete do ódio”, Bolsonaro começou o dia disposto a se livrar do ministro. Mandou preparar a exoneração e convocou uma reunião ministerial para as 17h, mesmo horário em que todos os dias Mandetta participa de entrevista coletiva para atualizar os números da epidemia. A ausência do ministro no compromisso diário foi planejada para servir de mensagem eloquente sobre quem de fato mandava no governo. Não deu certo.

Durante a reunião, o presidente ainda não havia sido convencido a abortar a demissão. A pressão por um recuo, porém, só aumentava. Desde o meio da tarde, quando vazou a notícia de que Bolsonaro estava decidido a exonerar o auxiliar, a força dos demais poderes recaiu sobre o Planalto.

Um dos primeiros a ligar foi o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que pouco antes havia se reunido com Mandetta no Ministério da Saúde. No telefonema, Alcolumbre fez chegar a Bolsonaro que, consumada a demissão, a relação do governo com o Congresso ficaria arruinada. Era um aviso velado de que, caído Mandetta, o parlamento não iria tolerar uma mudança nos protocolos que aviltasse as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). No mesmo tom foi a ligação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. Aliado informal de Bolsonaro na cúpula o Judiciário, Toffoli vocalizou o sentimento unânime entre os ministros da Corte de que a queda de Mandetta seria “muito mal recebida”.

Mais cedo, o ministro Gilmar Mendes também havia alertado o Planalto dos riscos que a demissão ocasionaria. Interlocutor frequente dos ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (Advocacia-geral da União), considerados favoritos para a sucessão do decano Celso de Mello em novembro no STF, Mendes revelou a amigos que perdeu toda a paciência com Bolsonaro. Há 10 dias, ele participou de uma reunião no Alvorada na qual garantiu que o Supremo não aplicaria sanções ao governo por descumprimento das metas fiscais no combate ao coronavírus. Sua tolerância se esvaiu no dia seguinte, ao ver o presidente cumprimentando populares durante passeio por cidades-satélites de Brasília.

Além do respaldo jurídico, Bolsonaro viu se esvair a confiança que ainda desfrutava em parte da Esplanada. Mesmo acostumados aos destemperos presidenciais, ministros mais distantes do núcleo do poder se apavoraram com o tratamento dispensado a Mandetta. Em meio aos rumores da queda do titular da Saúde, parlamentares também davam como certa a saída da titular da Agricultura, Tereza Cristina, outra filiada ao DEM. Considerada uma das mais competentes integrantes do primeiro escalão, Cristina estaria frustrada com a falta de recursos para socorrer produtores rurais atingidos pela seca no sul do país.

Ela ainda reclama do cansaço na tentativa de minimizar os prejuízos causados ao agronegócio pelas provocações à China feitas por Eduardo Bolsonaro, deputado federal, e Abraham Weintraub, ministro da Educação. Como Bolsonaro vive às turras com Alcolumbre e Rodrigo Maia, ambos do DEM, a eventual demissão de Mandetta seria vista como ruptura institucional do governo com o partido, deixando a ministra livre para renunciar ao cargo.

A despeito de tanta intriga, a fatídica reunião no Planalto se encerrou com Mandetta ainda à frente do ministério. Foi uma vitória incontestável do ministro, mas sobretudo da ala moderada do palácio, agora incorporada pelo chefe da Casa Civil, Braga Neto. Atuando como bombeiro, o general convenceu Bolsonaro do desastre político que seria a exoneração de um auxiliar que desfruta do dobro da aprovação popular do chefe, como mostrou a última pesquisa Datafolha.

Todavia, a intervenção dos generais que agora usam terno não escapou incólume à birra dos filhos do presidente. Eles aparentemente desistiram de alçar Osmar Terra (MDB-RS) ao comando da saúde em razão do desgaste popular do deputado, abandonado pelo próprio partido, mas seguem à procura de um médico respeitado que reze pela cartilha bolsonarista. Enquanto esse momento não chega, continuam agindo nos bastidores para que o pai descarte os conselhos da ala militar e siga o instinto beligerante de fazer política que o consagrou nas urnas em 2018.