Jornal Tijucas - Com o coronavírus, suplementos alimentares provavelmente não ajudam

Com o coronavírus, suplementos alimentares provavelmente não ajudam

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As vendas de suplementos alimentares aumentaram em todo o país, pois os consumidores em pânico estocam vitaminas, ervas, extratos e remédios para gripe e resfriado

coronavírus
(Foto: Chester Higgins Jr. / The New York Times)

*Por Anahad O'Connor

Nas últimas semanas, Ashley Koff, nutricionista em Columbus, Ohio, recebeu uma enxurrada de perguntas de pessoas que querem saber quais suplementos alimentares devem tomar para se proteger do coronavírus.

Todos perguntam quanto xarope de sabugueiro, prata coloidal e óleo de orégano devem tomar para fortalecer seu sistema imunológico. Uma pessoa que testou positivo para o coronavírus e foi enviada para casa para se recuperar enviou uma mensagem a Koff pedindo recomendações de suplementos. Outros se perguntam se devem ingerir grandes quantidades de kombucha e usar óleos essenciais como desinfetante para as mãos.

"Alguém me perguntou se deveria fazer uma desintoxicação à base de suco e eu disse que absolutamente não. Alguém quis saber se deveria fazer um jejum. Eu disse que qualquer coisa que esgote os recursos de seu corpo agora vai aumentar o risco de ficar doente", contou Koff, que é executiva-chefe do The Better Nutrition Program, que fornece conselhos nutricionais individuais e programas de bem-estar corporativos.

As vendas de suplementos alimentares aumentaram em todo o país, pois os consumidores em pânico estocam vitaminas, ervas, extratos e remédios para gripe e resfriado. Não há provas de que esses produtos diminuam a probabilidade de contrair o coronavírus ou encurtar seu curso, e tomar grandes doses deles pode causar danos. Mas especialistas acreditam que o salto nas vendas sugere que muitas pessoas estão desesperadas para fortalecer defesas imunológicas e aliviar o alto nível de ansiedade.

"Os números que estamos vendo são sem precedentes. As pessoas estão tentando se proteger e sentem que têm de tirar proveito de todos os recursos à disposição", explicou Joan Driggs, analista da IRI, uma empresa de pesquisa de mercado que monitora as vendas de suplementos no Walmart, Walgreens, Safeway, CVS e outras farmácias e varejistas.

Enquanto as vendas de suplementos alimentares aumentaram seis por cento no geral durante a primeira semana de março em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o IRI, as vendas de remédios para gripe e resfriado tiveram um aumento agudo. As vendas de vitamina C, um suposto reforço imunológico, subiram 146 por cento, enquanto as de zinco, um remédio popular para resfriados e doenças respiratórias, subiram 255 por cento. As vendas de suplementos à base de sabugueiro, que são comercializados como um auxílio imunológico, aumentaram 415 por cento. As da flor de cone, uma erva usada para alívio de resfriados e gripes, subiram 122 por cento.

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A Vitamina D e multivitaminas para crianças e adultos também experimentaram picos extraordinariamente acentuados nas vendas este mês, assim como a melatonina, que, alguns estudos mostraram, pode ajudar no sono. Driggs disse que o crescimento do consumo de melatonina provavelmente está relacionado a um aumento nas interrupções do sono relacionadas ao estresse. "Isso mostra que há níveis mais altos de ansiedade. As pessoas temem pela saúde e pelo bem-estar de sua família e também de seu bem-estar financeiro."

Em todo o país, as farmácias que lidam com suprimentos têm limitado a quantidade de vitaminas, Zicam, Emergen-C e outros suplementos que os clientes podem comprar. Uma grande rede de supermercados com 230 lojas em sete estados, a Harris Teeter, restringiu as vendas do Airborne, que é comercializado como suporte imunológico, a três pacotes por cliente.

A compra frenética levou algumas empresas e entusiastas do bem-estar a se aproveitar do medo do público. Inúmeros remédios naturais para o coronavírus têm circulado nas redes sociais, incluindo ervas, água salgada, cremes, pastas de dente e "solução mineral milagrosa", uma mistura de cloreto de sódio que a Administração de Alimentos e Drogas (FDA, na sigla em inglês) alertou ser equivalente a beber alvejante.

Em resposta, a FDA e a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) enviaram cartas de advertência a pelo menos sete empresas alertando-as a parar de anunciar curas e tratamentos fraudulentos para o coronavírus, incluindo óleos essenciais, chá de sabugueiro e suplementos de prata coloidal. As agências advertiram que a prata coloidal, em particular, "não é segura ou eficaz" para qualquer doença ou condição. Disseram que estão monitorando sites e mídias sociais para eliminar produtos falsos e que uma força-tarefa está trabalhando com grandes varejistas e lojas on-line para remover dezenas de anúncios de curas e tratamentos fraudulentos de coronavírus.

Os americanos já têm um alto nível de ansiedade em relação à propagação do coronavírus, disse Joseph Simons, presidente da FTC. "O que não precisamos nessa situação é de empresas que atacam os consumidores, promovendo produtos com alegações fraudulentas de prevenção e tratamento", acrescentou.

Cinco dos principais grupos comerciais da indústria de suplementos aplaudiram a ação do governo e pediram aos consumidores que desconfiassem dos produtos relacionados ao combate do coronavírus. A indústria também pressionou o governo federal e as autoridades estaduais e municipais a classificar os fabricantes de suplementos alimentares como "essenciais" em áreas onde há portarias que restringem o comércio não essencial.

"Acho que o fato de estarmos vendo esse aumento nas vendas nos diz que os consumidores valorizam sua capacidade de usar suplementos", afirmou Steve Mister, presidente e executivo-chefe do Conselho de Nutrição Responsável, um grupo do setor.

Os suplementos mais vendidos são aqueles que há muito tempo são objeto de pesquisa sobre o alívio do resfriado e da gripe, incluindo zinco, vitamina D e extrato de sabugueiro. Acredita-se que o zinco iniba a replicação do vírus que causa o resfriado comum. Alguns ensaios randomizados descobriram que tomar altas doses pode ajudar a reduzir o risco de contrair um resfriado e potencialmente encurtar sua duração em 20 por cento.

Já foi mostrado em alguns ensaios que a suplementação com doses moderadas de vitamina D ajuda a diminuir o risco de contrair resfriado e gripe, mas o efeito é visto principalmente em pessoas que têm níveis muito baixos ou deficientes. E alguns pequenos testes financiados pela indústria descobriram que o extrato de sabugueiro pode encurtar a duração e a gravidade do resfriado e da gripe.

Mas a evidência nesses casos não é forte, e não é possível extrapolar, dizendo que ajudarão a prevenir ou tratar o coronavírus porque têm alguma eficácia contra o resfriado e a gripe, explicou Kamal Patel, pesquisador de nutrição e diretor do Examine.com, um banco de dados amplo e independente de pesquisa de suplementos. Esses vírus são bem diferentes um do outro. O coronavírus, por exemplo, tem um impacto mais severo no trato respiratório inferior e um período de incubação mais longo em comparação com os vírus que causam resfriados e gripe.

Tomar grandes doses de vitaminas e minerais também traz riscos. Níveis excessivos de zinco, por exemplo, podem interromper a captação de cobre pelo corpo, aumentando a probabilidade de anemia. A vitamina D não é metabolizada eficientemente sem um nível adequado de magnésio, e em altas doses pode ser tóxica.

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Vitaminas e suplementos de ervas também podem interagir com medicamentos prescritos, diminuindo sua eficácia ou, no caso de anticoagulantes, por exemplo, elevando as concentrações a níveis perigosamente altos.

Há momentos em que tomar um suplemento pode ser muito útil, como durante a gravidez ou para resolver uma clara deficiência de nutrientes. Mas, para adultos saudáveis que estão preocupados com o coronavírus, uma dieta nutritiva e uma quantidade adequada de sono e exercícios são as melhores maneiras de fortalecer o sistema imunológico, disse Linda Van Horn, chefe de nutrição do departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern Feinberg.

Alimentos integrais como frutas, legumes, peixes, aves, nozes, leguminosas e leite contêm uma ampla gama de vitaminas, minerais e fitoquímicos – incluindo zinco e vitamina D – que trabalham em sinergia para proteger sua saúde.

"Este é o momento ideal para ver o que você está comendo. Todos sabemos que os supermercados estão com alguns produtos limitados. Mas, na maioria das vezes, ainda dá para encontrar frutas e legumes frescos e outros alimentos saudáveis", ensinou Van Horn.

Koff, a nutricionista de Ohio, diz que é bom tomar um multivitamínico para resolver quaisquer lacunas em sua nutrição. Mas encoraja as pessoas a se concentrar em sua dieta, em seus níveis de estresse e sono, e as adverte a não sobrecarregar seu sistema com grandes doses de suplementos.

"Este é o momento de começar a adotar comportamentos que amparem sua saúde, não de tomar grandes quantidades de coisas que estão incorretamente listadas como reforços imunológicos", disse ela.

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Fonte: Com Agências