Jornal Tijucas - A pandemia nos fará repensar os nossos contatos, diz pesquisadora da University of Alberta

A pandemia nos fará repensar os nossos contatos, diz pesquisadora da University of Alberta

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Professora de literatura e tradução na University of Alberta no Canadá, Odile Cisneros está em Florianópolis desde fevereiro, quando chegou para lecionar um semestre como professora visitante na PGET (Pós-graduação em Estudos da Tradução) na UFSC.

Quando a pandemia começou em Santa Catarina, ela estava finalizando uma disciplina intensiva sobre ecopoesia e tradução, antes da universidade suspender as aulas em março.

 
 

A situação de emergência irá nos obrigar a repensarmos os contatos, avalia Odile Cisneros – Foto: Engin Akyurt/Unsplash/Divulgação/ND

Com formação em filosofia e matemática, pós-graduação em estudos de literatura na New York University, ela atualmente pesquisa nas áreas de tradução (tradução literária e tradução comunitária), literatura e meio ambiente (ecopoesia e ecocrítica) e poesia e poéticas de vanguarda (especialmente modernismo, poesia concreta e contemporânea).

Em isolamento com a família, a professora que nasceu na Cidade do México e trabalha com literatura brasileira, atendeu o nd+ por e-mail. No anseio de entender esse tempo, Odile une conhecimentos em várias áreas para refletir o que virá depois da Covid-19.

Ela que vivenciou o 11 de setembro já com o olhar atento de estudiosa, analisa o que está em pauta no futuro dos relacionamentos, dos contatos, do uso da tecnologia e dos nossos deslocamentos pós-pandemia.

 

Professora Odile Cisneros está como professora visitante da UFSC – Foto: Ualberta.ca/Divulgação/ND

Entrevista: Odile Cisneros, University of Alberta e professora visitante na PGET da UFSC

Temos alguma pista de como sairemos desse processo?

Nesse período de pandemia e isolamento, tenho pensado muito em como será a situação, não apenas nesses meses, mas daqui para frente. Em 9 de março, no dia em que o governo italiano anunciou o isolamento, e dias antes que os primeiros casos surgiram em Santa Catarina, escrevi para um colega na Itália perguntando sobre a situação.  Ele escreveu: “Pois é, viver em regime restrito não vai ser o máximo, mas nesse momento acho que seja uma escolha obrigatória. Espero que também a Europa inteira tome medidas parecidas o mais rapidamente possível. Aqui em Roma e em geral no centro e no sul do país a situação está ainda bem tranquila, porém é necessário fazer prevenção para evitar cenários piores. Vamos ver… Será preciso ter muita paciência.” Nesse dia, a Itália registrava 9.172 casos e 463 mortes. No domingo (5) eram 124.632 casos e 15.362 mortes.

Paciência é justamente a palavra. Quando era estudante em Nova York, aconteceram os ataques do 11 de setembro. Graças a Deus, como não era meu dia de aula e eu morava no Brooklyn, nesse dia eu não estava em Manhattan. Mesmo assim, foi um dia fora da realidade. Meus companheiros de apartamento e eu não saímos de casa por mais de 48 horas, e uma situação muito difícil se seguiu por muitos meses. A maioria das pessoas  (incluída eu) não entendia o que estava acontecendo, o que era viver com a ameaça do terrorismo e dificilmente conseguia visualizar o número de pessoas que tinham morrido nos ataques. Numa seção especial chamada “Portraits of Grief” (Retratos do luto), o “New York Times” passou a publicar diariamente uma página com as fotos e histórias das pessoas que tinham morrido. Isso aconteceu até o 31 de dezembro de 2001. Aproximadamente 3.000 pessoas morreram nesses ataques. As mortes em Nova York pelo coronavírus já somam 3.576.

Meus companheiros de apartamento e eu não saímos de casa por mais de 48 horas, e uma situação muito difícil se seguiu por muitos meses.

Quando a situação de emergência foi anunciada em Santa Catarina, pensei nesses dias do 11 de setembro. Falando com outros colegas que também viveram essa experiência, concordaram comigo que era algo parecido. Tudo mudou no 11 de setembro, e tudo irá mudar novamente depois da Covid-19. No entanto, não estamos lidando agora com um ataque pontual que aconteceu num dia fatídico, mas com uma situação sem um horizonte determinado e que dia após dia parece mais complicada de gerir.

É possível que nossa forma de contato mude radicalmente?

Essa é uma pergunta muito interessante. Quando a doença já tinha chegado ao Brasil, mas ainda não em Santa Catarina, a ideia do perigo de contágio por contato já estava no ar por aqui. Se começava a ver pessoas comprando e usando desinfetante e álcool gel em diferentes lugares. Mesmo assim, o transporte público, restaurantes e outros locais estavam ainda lotados. As pessoas ainda planejavam viagens e confraternizações… Não existia uma tomada de consciência radical. Agora tudo está mudando e irá mudar ainda mais. Já os supermercados e lojas estão instalando barreiras de acrílico para proteger os funcionários. Os restaurantes passaram a funcionar apenas por entrega. O uso de luvas e desinfetantes virou universal. Ainda não as máscaras, mas é possível que isso também aconteça. Pensei curiosamente em todas as tecnologias que usamos e que dependem do contato físico, podendo assim gerar risco de contágio – desde os botões dos elevadores até os caixas automáticos dos bancos, as maquininhas de pagamento nas lojas e mesmo nossos próprios celulares. Imagino que se o risco de um novo surto surgir, irão se desenvolver tecnologias que não dependam do contato físico e que já estão sendo usadas como sistemas de reconhecimento facial  ou reconhecimento de voz.

Imagino que se o risco de um novo surto surgir, irão se desenvolver tecnologias que não dependam do contato físico e que já estão sendo usadas como sistemas de reconhecimento facial  ou reconhecimento de voz.

E as nossas relações afetivas?

É curioso quanto nossos relacionamentos dependem, literalmente, do contato com os outros. A palavra “contato,” em suas origens e sua definição, já revela isso. A palavra vem do latim, tactus, relacionada com as palavras “toque,” e “tocar.” O cicionário Priberam registra como definições a palavra: 1. Estado dos corpos que tocam uns nos outros. = CONTIGUIDADE. 2. Relação de comunicação ou de proximidade. = CONVÍVIO. 3. [Figurado]  Proximidade, influência. 4. Informação que permite estabelecer comunicação com alguém (ex.: não se esqueça de deixar um contato telefônico). A proximidade dos outros, portanto, é o que facilita o convívio, a comunicação, a interação e os relacionamentos. Faz muito tempo que como humanos já desenvolvemos tecnologias para comunicação à distância. No entanto, nesses dias de “distanciamento social,” temos encontrado novas maneiras de manter “contato.” Aplicativos como Zoom e Skype estão sendo usados por muitos mais. Até as crianças agora conseguem fazer aula à distância através da tecnologias como o Google Classroom. Essa situação de emergência irá nos obrigar a repensarmos essas definições de contato. Também teremos que criar novas maneiras de nos comunicarmos e de paradoxalmente, nos mantermos próximos apesar da distância profilática.

É possível que por um bom tempo tenhamos restrições de deslocamento. A tecnologia pode nos ajudar nessa sede que temos de conhecer o outro?

Também essa é uma pergunta instigante! É curioso que a pandemia colocou em destaque questões que já estavam sendo contempladas por outros motivos, entre eles a economia e a ecologia. Hoje que estamos obrigados a ficar em casa e não poder viajar e ter encontros pessoais, nos damos conta que já há algum tempo foram desenvolvidas modalidades de interação como encontros e congressos virtuais, teleconferências, educação à distância, comércio online. Sinto que, num certo sentido, estamos melhor preparados para isso do que pensávamos. Por exemplo, já muitos ambientalistas tinham assinalado o problema da poluição e emissões que geram as viagens de avião a congressos internacionais, e muitos passaram a defender os congressos online considerados neutros em emissões de carbono. Agora talvez essa modalidade fique mais comum, assim como os muitos “webinars”, a educação à distância que já está acontecendo a todos os níveis. A colaboração continuará, talvez com menos deslocamento. Nossas vidas já eram virtuais, só que agora, por motivos de saúde pública, ficaram ainda mais virtuais.

Existe ainda, claramente, um problema muito sério para as pessoas cujo trabalho não pode ser feito à distância, o que justamente depende desses deslocamentos, o turismo, a aviação, os transportes. Já se fala muito das gravíssimas consequências para a economia do mundo inteiro dessa pandemia. Acho que não saberemos mesmo os resultados por muito tempo…

Agora talvez essa modalidade fique mais comum, assim como os muitos “webinars”, a educação à distância que já está acontecendo a todos os níveis.

Um fator interessante da pandemia é que ela destacou o papel da ciência e da produção do conhecimento. Será que levaremos isso adiante? Há um palpite de como as universidades ficarão após passarmos por tudo isso?

O papel da ciência, da produção do conhecimento  e do fluxo da informação é fundamental. O problema com o novo coronavírus, como já se falou bastante, não é que seja um vírus com uma taxa relativamente alta de mortalidade. O problema é que sabemos muito pouco sobre esse vírus e, portanto, nossas possibilidades de fazer predições sobre seu comportamento são limitadas. Também, nas primeiras fases do avanço da doença, não se sabia muito sobre seu mecanismo de transmissão ou possíveis terapias. A cada dia estamos descobrindo mais, e tudo isso graças aos pesquisadores. As universidades têm um papel de destaque nisso. No entanto, também as universidades estão sofrendo por causa da pandemia. Muitas instituições de ensino superior, tanto no setor público como privado, terão seus orçamentos reduzidos. Também, as suas atividades estão sendo canceladas ou limitadas. Já que muitas universidades dependem dos governos para seu financiamento, haverá um impacto sério nelas. A minha própria instituição, University of Alberta, já estava sofrendo pela difícil situação econômica que atravessa nossa província pela queda do preço do petróleo (somos produtores), e agora a crise da Covid-19 irá fragilizar ainda mais suas atividades. Imagino que as universidades em Santa Catarina também sofrerão os efeitos de  uma crise econômica no Brasil.

Na literatura, há autores que retrataram as pestes em suas obras – e muitos escreveram durante as quarentenas. Há algo deles que pode nos ajudar a pensar como sairemos da pandemia ou como trataremos os nossos lutos?

As pandemias e epidemias já inspiraram muitas obras da literatura. Por exemplo, um dos grandes livros da literatura do renascimento, o “Decamerão” (1352), de Giovanni Boccaccio, foi concebido como resposta à peste negra. A história que enquadra a obra é que um grupo de jovens, fugindo da epidemia de 1348 em Florença, se desloca para uma vila no campo. Ficam duas semanas em quarentena e, para passar o tempo, contam histórias. Durante essas duas semanas (excluindo sábados e domingos) propõem que cada um deles conte uma estória por dia, aí no total são 100 histórias. Embora o começo da obra é sombrio, com descrições da devastação causada pela peste, as histórias são variadas, algumas cômicas e outras trágicas. Tenho pensado bastante que para os que não estão doentes e tem o “luxo” de trabalhar esses dias em casa, o “Decamerão” oferece um exemplo de como fazer o melhor possível numa situação complicada. Os desafios também oferecem oportunidades para respostas criativas.

Também há outras obras menos divertidas embora ainda otimistas. Li recentemente que na França muitas pessoas estão voltando a ler “A peste” (1947), um romance do escritor existencialista argelino Albert Camus, que conta a história de uma epidemia em Oran, no Norte da África, em que depois de descobrirem ratos que aparecem mortos misteriosamente, as pessoas também começam a ficar doentes e morrem. Um médico, o Dr. Rieux, alerta às autoridades sobre o perigo de uma epidemia, e a cidade inteira entra em quarentena, levando a diferentes reações entre a população. No final, a epidemia termina e a cidade é aberta novamente. O romance é visto como uma reação ao absurdo da vida frente ao qual, no entanto, os seres humanos podem ainda reagir de maneira corajosa e até heroica.

Ainda há romances da chamada “literatura especulativa” onde também epidemias e outros desastres biológicos ameaçam com destruir a humanidade. Entre eles, posso destacar os romances da escritora canadense, Margaret Atwood, “Oryx e Crake” (2003) e “O ano do dilúvio”  (2009) que apresentam personagens em situações distópicas num momento pós-apocalíptico. Embora a palavra distopia poderia nos gerar ansiedade e desassossego, muita da ficção especulativa é escrita como projeção de perigos futuros, para nos advertir, e também nela encontramos personagens sobreviventes que conseguem se sobrepor à adversidade.

Embora a palavra distopia poderia nos gerar ansiedade e desassossego, muita da ficção especulativa é escrita como projeção de perigos futuros, para nos advertir, e também nela encontramos personagens sobreviventes que conseguem se sobrepor à adversidade.

Neste momento, a sua sugestão, o que nos embasa mais para prosseguir: a ficção ou a não ficção, ou ambas em suas devidas doses?

Acho que cada um de nós deve fazer sua escolha! Pessoalmente, acho que temos muita dosis de “não ficção” com as notícias que lemos diariamente, por isso eu prefiro a ficção ou a poesia como “refúgios” talvez nesse isolamento. Uma das vantagens das obras de imaginação é que apresentam mundos possíveis que podem ajudar a mudar nossa realidade. Embora a realidade da pandemia é difícil nesses momentos, sabemos, pela ciência, que esse momento não irá durar para sempre. Podemos aproveitar nosso recolhimento não voluntário para meditar e profundizar em maneiras de mudar o mundo para bem. Em “The Song of the Earth”, um livro sobre poesia e meio ambiente, o crítico literário britânico Jonathan Bate argumenta que “as próprias obras de arte podem ser estados imaginários da natureza, ecossistemas ideais imaginários e, ao lê-los, ao habitá-los, podemos começar a imaginar como poderia ser viver de maneira diferente na terra.” Quem sabe se esse momento difícil vire também um momento importante para todos nós em nossa procura de sentido e de nossa capacidade de “viver de maneira diferente na terra.”


Fonte: Com Agências