Jornal Tijucas - Coronavírus: O passado ajuda a explicar o presente da pandemia 

Coronavírus: O passado ajuda a explicar o presente da pandemia 

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Pesquisa sobre a gripe espanhola, que atingiu SC e causou muitas mortes há 102 anos, mostra semelhanças com o momento que estamos atravessando

Entre os anos de 1918 e 1919, o mundo também se colocou de joelhos diante de um vírus devastador que matou 50 milhões de pessoas
Entre os anos de 1918 e 1919, o mundo também se colocou de joelhos diante de um vírus devastador que matou 50 milhões de pessoas
(Foto: Unsplash)

As ruas vazias, o comércio fechado, o medo de cada um diante da pandemia do coronavírus nos faz olhar para o passado. Entre os anos de 1918 e 1919, o mundo também se colocou de joelhos diante de um vírus devastador que matou 50 milhões de pessoas. A gripe espanhola, que de espanhola só tinha o nome, infectou em torno de 19 mil pessoas em Florianópolis, o equivalente a 30% da população. Pelo menos 124 óbitos foram oficializados na capital do Estado.

Um dos raros estudos disponíveis que foca o assunto é o artigo “A pandemia de influenza espanhola (1918) em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil”, de Bruno Rodolfo Schlemper Junior e Ana Claudia Dall’Oglio publicado no Arquivos Catarinenses de Medicina. A publicação é de 2011. O estudo permite imaginar o impacto da influenza sobre a população levando em conta as condições sanitárias e sociais da época.

O pico epidêmico em Florianópolis foi em novembro de 1918, dois meses depois dos primeiros casos, com 65 mortes. O vírus desembarcou em SC poucas semanas desde que os primeiros casos surgiram no Rio de Janeiro, a Capital Federal. Já existiam os navios de passageiros que faziam a rota Rio de Janeiro-Florianópolis a cada 15 dias.

O vaivém foi o principal disseminador do vírus que também se propagou muito rapidamente entre os catarinenses. A pandemia chegou no porto de Florianópolis em 6 de outubro, a bordo do vapor Itaquera que trazia 38 passageiros gripados. Sete dias depois confirmava-se o enorme contágio do vírus com notificação do primeiro caso autóctone (quando a doença é contraída dentro do município) da influenza espanhola.

Jornais da época como fonte de pesquisa

Os pesquisadores destacaram a necessidade de entender o contexto sanitário e social da época e o impacto da pandemia para a população de Florianópolis. Eles usaram como fontes primárias os jornais de Florianópolis e Relatórios da Inspetoria de Higiene de SC. Também fizeram levantamento dos óbitos do Cartório de Registro Civil de Florianópolis e das internações no Imperial Hospital de Caridade, ambos na época. Mas eles destacam: não foram encontrados livros editados ou artigos publicados em revistas científicas; apenas três trabalhos de conclusão de curso de graduação e uma tese de doutorado, todos em História, abordando aspectos específicos.

As fontes de maior informação foram os jornais e o relatório do Serviço de Higiene referente a 1918.Pelo registro oficial de óbitos comprovaram a existência de 81 óbitos pela influenza espanhola, com 65 deles ocorrendo no mês de novembro; pelo Relatório Oficial, foram infectadas cerca de 10 mil pessoas e 124 faleceram (0,12%). Assim como o coronavírus, além da dor pelas mortes e o medo do contágio, a pandemia alterou a vida das pessoas. Por isso, relatam os autores da pesquisa, existiam duas epidemias: a da gripe espanhola e a o medo da gripe espanhola.

 

Espanhola só no nome

Acredita-se que a gripe espanhola tenha começado a se disseminar nos campos de treinamento militar no front ocidental da 1ª Guerra Mundial (1914-1918). Há relatos médicos de 1917 que explicam como dois grupos de soldados britânicos ficaram doentes em Etaples, na França, e Aldershot, na Inglaterra, em 1916.

A guerra terminou em novembro de 1918, mas, quando os soldados voltaram para casa, levaram o vírus com eles. Apesar da nomenclatura, há muito tempo se sabe que o nome pegou porque a Espanha permaneceu neutra durante a Primeira Guerra Mundial. Como a imprensa espanhola era livre para informar sobre a doença, ficou a impressão de que o vírus surgiu por lá.

A economia dos 32 municípios catarinenses existentes na época foi bastante atingida. Nos arquivos da Câmara Federal há relatos em que o deputado Celso Bayma (SC) se posiciona. Bayma, deputado estadual, seis vezes federal e senador no começo do século representando Santa Catarina, redigiu um projeto de lei ampliando em 15 dias o prazo para o pagamento das dívidas com vencimento em plena epidemia.

Os que vivem estes dias angustiosos sabem que a capital do país (Rio de Janeiro) tem necessidade de feriados, o mesmo sucedendo com a praça de São Paulo. Por esse meio, poderão os negociantes encobrir a situação aflitiva em que se encontram – defendeu Bayma, sem, contudo, conseguir a aprovação do projeto.

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(Foto: AFP)

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Público se manifestava com cartas na imprensa

Assim como na ciência e pesquisa, muita coisa mudou na vida das pessoas no decorrer destes 102 anos. Sem redes sociais, a população se manifestava através de cartas. Inclusive sobre informações repassadas pela própria imprensa, como ocorreu em relação a uma notícia publicada no jornal O Estado, que na edição de 18 de outubro de 1918, informava que o vírus já se encontrava entre os catarinenses. Mas enfatizava o caráter “muito benigno”.

“A gripe chegou, entrou pelo porto e começou seu reinado. A Gripe está em Florianópolis. O cotidiano vai mudar. As escolas e as dúvidas: suspender ou não as aulas? Deixa para a Gripe que ela resolve. A coisa está difícil! Quem sabe visitar um amigo, ir ao cinema, na missa, assistir a uma corrida de barcos... Está ficando todo mundo doente. O negócio é se alimentar bem! Afinal, qual é o remédio? Ou melhor, tem remédio? A gripe tinha caráter benigno. Imagine o contrário!”.

Tal qual hoje, onde movimentos espontâneos e de entidades enaltecem o trabalho dos profissionais de saúde, também a gripe espanhola suscitou este tipo de iniciativa. O Jornal A República, em novembro de 1918, publicou.

“Durante a situação angustiosa que atravessamos, é de louvarmos a solicitude, o desprendimento do nosso corpo médico, que tem trabalhado de modo exaustivo combatendo o mal da pandemia. Sem um momento de descanso, os nossos médicos prontamente hão atendido os chamados dos doentes qualquer que fosse a sua condição social: Ferreira Lima, Vulcão Viana, Ervino Presser, Alfredo Araújo, Carlos Corrêa, Felipe Pedreira e Adhemar Grijó são dignos de nossos louvores”.

Mas a gravidade da situação fez a imprensa mudar o olhar e reconhecer que não se tratava de uma “gripezinha”. Em 16 de novembro, o ponto máximo da pandemia em Florianópolis, o jornal O Estado relatava a situação dramática do cotidiano das pessoas mais vulneráveis.

“Homens validos, operários e jornaleiros, foram arrastados a mais extrema penúria. Famílias que nunca apelaram para a caridade pública se tem visto na dolorosa contingência de mendigar por recursos para os seus doentes, pois a impossibilidade de trabalharem as compelia a esta triste necessidade. Não se pode fazer uma ideia fiel e precisa do sofrimento, aflição e da angústia que vae pelos bairros pobres, onde a peste grassou e está grassando ainda com intensidade”.

É verdade que o coronavírus tem alto poder de disseminação. Mas são melhores as condições sobre a influenza espanhola, sobre a qual pairava o total desconhecimento sobre o agente causador, formas de transmissão e de prevenção. Assim como a falta de hábitos de higiene pessoal e a insuficiente estrutura sanitária da cidade e de serviços de saúde pública.

Hoje, ainda que exista uma imensa massa de catarinenses em situação de vulnerabilidades – moradores de periferias e de ruas, índios – há uma sociedade política e civil mais organizada.

Ainda assim, há de se pensar sobre os resultados da pesquisa. Pelo jeito, 102 anos depois o isolamento social permanece como a principal arma para um vírus novo e que se transformou em pandemia.

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“O mundo ignorou o passado”, avalia Bruno Rodolfo Schlemper Júnior, médico e pesquisador

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(Foto: Hospital Dona Helena, Divulgação)

A pesquisa foi abrangente e inclui o impacto da gripe espanhola no Sul do Brasil, e não apenas em Florianópolis. Como foi no restante de SC?

A gripe espanhola chegou a Santa Catarina por passageiros e tripulantes infectados no navio Itaquera, em outubro de 1918. A partir daí, disseminou-se por todo o Estado, de forma avassaladora, rápida, inicialmente nas cidades litorâneas e, posteriormente, nas interioranas, desorganizando por completo a vida social das cidades. A infecção era muito grave.

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Foi possível levantar o número de infectados e de óbitos no Estado?

É difícil precisar o número de infectados, mas os jornais locais e relatório da Inspetoria de Higiene de 1919 revelam a presença da gripe em todas as regiões de Santa Catarina e esse último documento estima em cerca de 1,5 mil óbitos, mas, ao mesmo tempo, alerta que devem ter falecido muito mais catarinenses. Os dados são esparsos, como em Laguna (3 mil infectados e 130 óbitos), Tubarão, Armazém, Lages (428 mortos), Itajaí, (nove mortos), como em Blumenau, Nova Trento e Joinville.

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O vírus chegou através de navios nos portos. Como alcançou outras regiões?

A dispersão litorânea em Santa Catarina se deu pela chegada de passageiros contaminados nos navios enquanto a interiorização ocorreu, sobretudo, pela via férrea (na época, existiam mais de mil quilômetros de ferrovias). No Oeste catarinense foi possível rastrear a origem do vírus pelos infectados que chegavam no porto de Rio Grande (RS), e de lá, por estrada de ferro, colonizavam os estados do Sul.

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Estamos diante de uma nova pandemia. Qual a lição que podemos tirar da gripe espanhola?

A história se repete, o vírus é outro, mas, lamentavelmente, o mundo está pagando o preço de ignorar o passado. Infelizmente, outras pandemias virão como há muitos anos alertam os cientistas. Acrescente-se que mais de 60% das novas doenças terão origem em animais silvestres. O mundo deve se preparar para novas pandemias.


Fonte: Com Agências