Jornal Tijucas - Impacto da pandemia na cultura pode ultrapassar R$ 100 bilhões

Impacto da pandemia na cultura pode ultrapassar R$ 100 bilhões

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Pesquisa aponta que 580 mil pessoas podem ser demitidas no setor cultural após coronavírus

Uma pesquisa recente diz que mais da metade dos eventos culturais previstos para este ano foi cancelada
Uma pesquisa recente diz que mais da metade dos eventos culturais previstos para este ano foi cancelada
(Foto: Unsplash)

Para a economia criativa se recuperar do impacto do coronavírus, não bastam linhas de crédito subsidiado - será preciso um plano do governo específico para o setor. É o que propõe João Luiz de Figueiredo, coordenador do mestrado profissional em gestão de economia criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM.

Figueiredo estima que o prejuízo na área, que responde por 2,64% do PIB brasileiro, pode ser de mais R$ 100 bilhões. Agora, no entanto, a maior preocupação deve ser impedir a falência das empresas do ramo. Elas ocupavam 5,2 milhões de pessoas em 2018, segundo o IBGE. Boa parte desses profissionais trabalha por projeto, e não têm vínculos formais.

De todos eles - a economia criativa, afinal, engloba áreas tão diversas quanto moda, tecnologia e mídias -, os mais prejudicados serão aqueles que trabalham diretamente com a cultura, em especial em atividades que dependem de aglomerações, como teatro e shows, diz Figueiredo. Isso porque o fluxo de caixa delas é mantido por meio das bilheterias, que estão paradas desde que as apresentações foram interrompidas.

Segundo Silvia Finguerut, coordenadora de projetos da Fundação Getulio Vargas, a FGV, a crise causada pelo novo coronavírus pode significar ainda a saída em massa de trabalhadores da área. Ela os descreve como indivíduos melhor remunerados do que a média nacional, para quem os R$ 600 propostos pelo governo para amenizar o impacto econômico da pandemia não serão suficientes.

- O montador de palco vai voltar a erguer andaimes na construção civil, o produtor de eventos buscará outros rumos. E vamos perder essa parte do mercado que, a muito custo, conseguimos formar e amadurecer - afirma ela.

- É um setor muito frágil - afirma Figueiredo. - Se a quebradeira não for evitada, não haverá base produtiva que responda à volta da demanda.

Os dois especialistas avaliam que as linhas de crédito subsidiadas, lançadas pelos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro nas últimas semanas, minimizam o problema, mas não o solucionam. As de microcrédito, como aquelas de juros de 0,25% ao mês para limites de até R$ 21 mil oferecidas pelo estado fluminense, e de juros de 0,35% ao mês para valores até R$ 20 mil disponibilizadas pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, "são quase uma caridade", diz Finguerut.

- Elas serviriam para reativar o negócio, mas, com todo mundo em casa, sem público, não há como fazer isso.

Além disso, acrescenta a coordenadora de projetos da FGV, ao fim do período de isolamento social, a população não conseguirá consumir o dobro de cultura, seja por limitação de orçamento, seja por hábito. Uma pessoa que gosta de teatro, por exemplo, não passará a assistir a mais peças por semana depois da quarentena.

Isso sem falar na possibilidade de que as pessoas ainda sintam medo de voltar a frequentar esses espaços. Figueiredo prevê a reabertura de locais como teatros e casas de shows para daqui a três meses no mínimo, e seis no máximo.

- E, quando falo de retomada, é parar de piorar. Só vamos retomar o crescimento no ano que vem.

Por causa disso, diz o professor, o governo federal precisa desenhar uma política setorial para a cultura, incluindo planos para empresas de todos os tamanhos e um calendário de editais para desenvolvimento de projetos, permitindo a manutenção, mesmo que mínima, da oferta de produtos culturais. A injeção direta de capital também deve ser feita por municípios e estados. A solução esbarra, porém, na gestão de Jair Bolsonaro, que, desde que assumiu a Presidência, entrou diversas vezes em conflito com a cultura.

- Ele tem procurado controlar a capacidade criativa, quando precisamos de políticas que a libertem - afirma Figueiredo. - A cultura não pode ser entendida só como diversão. Ela não só contribui para a renda, como é cada vez mais decisiva para potencializar a inovação.

580 mil podem ser demitidos no setor cultural após coronavírus

Uma pesquisa recente diz que mais da metade dos eventos culturais previstos para este ano (51,9%) foi cancelada, adiada ou está em situação incerta por causa da pandemia do coronavírus. Segundo o estudo da Abrape (Associação Brasileira dos Promotores de Eventos), se considerada todo o setor cultural, cerca de 580 mil profissionais podem ficar desempregados devido às medidas de segurança adotadas nos estados para prevenir que a doença se espalhe.

A Abrape é uma entidade que representa produtoras e promotoras em nível nacional e tem 200 associados. Entre os associados estão promotores de shows, peças de teatro e de festivais (como o festival de Verão de Salvador e a Festa do Peão de Boiadeiros de Barretos), agências de músicos e produtores de eventos para shoppings. Não há representações ligadas ao cinema na entidade. Segundo a assessoria de imprensa da instituição, ela procura diálogo com o governo Federal para para que sejam criadas medidas que evitem o colapso do segmento.

O mesmo estudo estima que 92% das empresas sentiram o impacto das medidas impostas pela quarentena nos estados com um prejuízo que podem chegar a R$ 290 milhões, considerando-se apenas o universo das associadas, e de cerca de R$ 90 bilhões se estimarmos a indústria nacional.

Coronavírus devasta a indústria cultural nos EUA, que pede "Plano Marshall"

Em duas semanas, 10 milhões de pessoas perderam o emprego nos Estados Unidos. Pelas projeções, o desemprego na maior economia do mundo vai chegar a 32% - no pior momento da Grande Depressão, em 1933, menos de um quarto dos trabalhadores foram afetados.

Os museus de Nova York fecharam no último dia 12 e foram seguidos por museus de outros estados. Só o Metropolitan, o terceiro mais visitado do mundo, prevê um prejuízo inicial de US$ 100 milhões.

Com o cancelamento de 31 produções da Broadway, as perdas com vendas de ingressos são calculadas em mais de US$ 100 milhões. Nos teatros off-Broadway e nas companhias regionais americanas, a pandemia ameaça fechar as cortinas definitivamente. Entre músicos, a pandemia se abate sobre uma categoria profissional que já teve sua renda dizimada pela introdução de serviços de streaming como iTunes e Spotify. A não ser para megaestrelas da música, a maioria em toda parte hoje sobrevive com concertos ao vivo, não com as vendas de gravações. Mesmo artistas estabelecidos, premiados com o Grammy, dependem do calendário de shows a curto prazo.

- Perdi a turnê que faria pelo país e pelo Canadá até o fim de abril - conta Maria Schneider, compositora que dirige sua orquestra há 28 anos. - Isto já é perda de trabalho para mais 20 pessoas.

Ela conta que não tinha marcado mais concertos recentes porque estava mixando seu novo disco, "Data Lords", que teve o lançamento adiado. Schneider vê um lado positivo no isolamento em casa.

- Espero que os músicos abracem alternativas. Um membro da minha banda acaba de comprar seu primeiro computador e está florescendo como professor de música online.

As lives de músicos se tornaram rotina no mundo. A veterana cantora e compositora Karyn Allyson está isolada em seu apartamento em Manhattan com o parceiro Bill McLaughlin, compositor, maestro e anfitrião de programas de música clássica. Ambos experimentam formatos de um programa ou podcast de música ao vivo que já despertou interesse de um produtor. Allyson conta que teve cancelados todos os shows que faria com um quarteto até maio. Tem feito lives e sido procurada por estudantes para aulas online.

- Mas para compor e tocar juntos - ela afirma - o delay de som que acontece em certas plataformas ainda é uma dificuldade.

No mundo desenvolvido, nenhum país tem uma indústria cultural tão vulnerável ao mercado como os Estados Unidos. O investimento público em artes e cultura no país mais rico do mundo é de US$ 4 per capita, em dados de 2017. O da Finlândia, no mesmo período, foi de US$ 95 per capita, o da Alemanha, US$ 30.

A crise atual apresenta outro desafio, o de liderança. Depois de assumir a presidência, em plena Grande Depressão, Franklin Delano Roosevelt embarcou no projeto mais ambicioso de financiamento cultural da história americana. Criou a agência Works Progress Administration e empregou dezenas de milhares de artistas plásticos, músicos, escritores e atores. Desses programas emergiram nomes como a fotógrafa Berenice Abbott, o pintor Jackson Pollock, o dramaturgo Arthur Miller, o diretor Orson Welles, entre centenas de nomes que marcaram a história das artes no país.

Hoje, o casal Donald e Melania Trump quebra a tradição anual e não aparece no camarote presidencial das premiações do Kennedy Center, a mais importante casa de performances da capital, com medo de serem vaiados. Os republicanos, no controle da Câmara de 2010 a 2018 e do Senado, desde 2010, propõem, a cada novo orçamento, cortar a cultura na carne.

O fato é que a economia criativa pesa no orçamento de cidades como Nova York, onde emprega 300 mil pessoas. Só os museus do estado geram receita anual de US$ 5,4 bilhões por ano. Uma fonte do Metropolitan diz que o museu espera impacto de frequência internacional quando reabrir. Os chineses formam o mais numeroso grupo de visitantes estrangeiros.

Antony Korner, publisher da Artforum, importante publicação de arte contemporânea, afirma que o impacto no mercado de arte deve ser muito maior do que o do crash de 2008. A revista fundiu as edições de papel de maio e junho e está oferecendo uma plataforma online para que as galerias possam exibir seus artistas com textos mais curtos. Korner diz que vai ser necessário um Plano Marshall para as artes, numa referência à assistência americana para reconstruir a Europa no pós-Segunda Guerra.


Fonte: Com Agências